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quarta-feira, janeiro 21, 2026

Porque Voto Seguro








O ano corrido e electrizante era de 86 no século e milénio passado.

Cinema de Santo António em Faro a gotejar jarros de gente imensa e quase na primeira fila um homem a beijar os 40 chorava copiosamente agarrado ao seu filho de 12 anos.

Naquele dia decidi que queria ser como o meu Pai: Emocional na força plena de lutar pelo que achamos decente e certo. Lá perto no palco alguém fixe chamava se Soares com o seu ar bonacheirão e com duas adagas penetrantes nos olhos; da boca saiam palavras corporizadas em frases que desaguavam na emoção de milhares de almas incendiadas numa época polarizada ( outro género de polarização muito diferente da actual) mas com figuras impares na politica tuga à esquerda, à direita e ao centro.

António José Seguro não é Soares nem Sampaio... mas não tem de o ser definitivamente
( felizmente).

Foi líder da Juventude Socialista e do Partido Socialista, foi deputado e membro governamental.

Tem experiência europeia e é europeÍsta convicto.

Fundou empresas com cunho familiar e criou empregos e oportunidades.

Lecciona e ensina.

Irradia simpatia e uma genuína preocupação com as pessoas.

É corredor de fundo e foi injustamente tratado por alguns dentro do aparelho socialista mas estoicamente fez a sua auto determinada travessia ( não do deserto) pelos rumos que escolheu.

É do "meu" (nosso) partido mas não esperou pela máquina corporativista partidária para lançar a sua candidatura.
É decente sem sombras vastas nos armários do passado e do presente ( garantia para o futuro).

Nestes tempos de radicalismos preocupantes e política fabricada no tik tok que alimenta ódios e extremismo voto em consciência no candidato que apresenta uma solução de equilíbrio tranquila, serena e aglutinando todos os portugueses e portuguesas sem excepção.
Para mim Seguro é FIXE
✊
Assessor de Comunicação

sexta-feira, fevereiro 24, 2023

Os Filhos do Sangue

 



Lembro me como se fosse ontem que a 24 estava a jantar entre amigos na Ribeira do Porto, saboreando  uma vitela no tacho a derreter languidamente na boca e um vinho do Douro que adornou mais uma noite na Adega de São Nicolau.

Saímos por volta das 23h30 e tive ainda tempo para um cigarro contemplativo numa noite amena, em que a vista, como usual, era (é) um postal nocturno convidativo em que o Rio guarda e delimita as margens entre Porto e Gaia.

Recordo-me da madrugada em que o horror emergiu e ficar horas colado com o meu Pai ao telefone entre o desespero e impotência e a raiva incontida que nos permitiu matar Putin virtualmente (mas de forma convicta) vezes sem conta com requintes de malvadez pérfida e toques extremos de um filme de terror de quinta categoria.

O desespero agudizante dos primeiros dias deu lugar a uma esperança sem aparente lógica racional de que os bravos  Ucranianos iriam prevalecer estóicos contra a máquina de guerra do czar sem trono e saudosista da antiga Rússia imperial em que o direito seria divino de obliterar povos e esmagar a resistência de quem pensa livre e vive em democracia imperfeita mas alicerçada nos valores básicos dos direitos comuns que unem os indivíduos. 

Deixei de ter ilusões e lirismos:  Somos todos filhos do sangue destes tempos angustiantes. No entanto sempre a esperança de que, como em outros tempos do tempo histórico e tangível, a bravura (justiça) e determinação (razão) irá derrotar o cinismo atroz da desinformação e do ódio puro e duro. 

Sempre ouvi dizer que não se combate um bruto ou um rufia com a razão do equilíbrio (infelizmente). Por vezes só a espada pode deter a espada, só o martelo pode responder ao martelo. 


Assim aconteceu (acontece).


Desesperei, revoltei-me, destilei textos de fúria durida , (re)tweets programados em grupo ou na pulsão individual, inundei tudo o que destilasse Putin e sua máquina de terror atroz. Escrevi e (re)escrevi, debati, fui insultado por guardas pretorianas extremistas e mansas no espirito seguidista de matilhas antigas com pastores a soldo  que prestam vassalagem a um decrépito mundo que já não tem lugar nos tempos do presente (aprendi que nas redes sociais existem fanáticos pagos e não pagos...). 

Um ano após o inicio de tempos atípicos, a Ucrânia resiste e insiste no caminho da luta de um direito de nascença de qualquer nação: Ser livre de grilhetas e mordaça. 

Como devem intuir não sou apologista da guerra e da  morte. Nada apagará os mortos, os estropiados e os órfãos de ambos os lados da barricada.  

Nada apagará duas gerações de povos varridas do mapa. 

Nada apagará o ano mais angustiante das nossas vidas. 

Nada apagará o dilúvio obsceno de morte que Putin e seus sequazes lançaram ao mundo (eles e só eles esqueçam lá o resto...) 

No entanto...

Um ano depois a Ucrânia resiste (e insiste). 

Afinal o Czar ia nu... 

Afinal Kiev não caiu em setenta e duas horas... 

Afinal o "presidente-palhaço" não fugiu... 

Contudo... 

Nada está ganho 

Nada está perdido

Tudo está em aberto... 

Ressistiremos à fúria dos brutos, se possível com negociações, se possível com compromisso. 

Mas lutaremos... ao lado dos Ucranianos com a pena e a caneta, com os punhos e com as armas, com a resiliência de quem não se dobra perante o mal. 

(Cada um luta como sabe como pode) 

Ganharemos (muitos)... Perderão (alguns tantos)... 


Nós os filhos do sangue destes tempos malditos. 

Nós os proscritos dum tempo sem lei

Nós os que não calamos (e lutamos) 






terça-feira, setembro 06, 2022

sexta-feira, junho 17, 2022

Gravatas & "Fatos de Macaco"

 



Uma foto com história pintada de fresco hoje em Kiev.

Com os pesos pesados da Alemanha, Itália, França e com a presença resiliente da Roménia...

Uma foto com história, para a história do mundo presente ...se nada mudar e a Ucrânia tombar lentamente, será feita história sem brilho...se este for o ponto de viragem e a velha Europa tiver actos rápidos de coragem será feita ( também) história daquela que ficará para a história do mundo livre que combate os brutos.

Será sempre História...

(com letras douradas no meio do sangue derramado ou com rascunhos negros como a alma de Putin)

Nota: Nunca a repetição da palavra "história" me pareceu tão premente...




quarta-feira, junho 08, 2022

Bright Light (in Ukraine)

 



Esta foto (confirmada com o cunho da verdade analítica da independência plural) parece "poucochinha"...um homem a apanhar raios de sol em #Azovstal num raro momento de paz aparente|
Para os mais distraídos e confusos com o que realmente se passa na #Ucrania, representa um momento de liberdade de um condenado á morte que decidiu não desistir e lutar até ao fim.
Gostaria que fosse possível bater #putin com flores e palavras doces, mas até os fundamentalistas que defendem que a Ucrânia e o seu povo são todos nazis ( entre outros disparates), devem reconhecer que não existe nada mais nobre do que um homem/mulher que luta pelo direito coletivista de existir como povo.
Já mete um pouco um "nojo filho da putita" os chavões desesperados ( porque os ucranianos não se vergaram nem foram vergados) dos putinistas e afins que culpabilizam os ogres maus das democracias ( imperfeitas ) do ocidente como os causadores desta invasão bárbara.
Não me vou dar ao trabalho de rebater muitas opiniões confusas e algumas mal intencionadas que circulam nas redes sociais e na vida real.
A culpa da velha Europa e do ( por vezes) autista Uncle Sam, é expressada no acto simples de terem baixado as calças quando Putin galopou territórios e "cegarem" a troco de acesso continuo a fontes energéticas e afins.
O resto...resume se a um ditador imperialista que se quer impor pelo medo e pelo sangue de inocentes.
Não passará!!!
PS: Provavelmente Putin será o pior estratega do mundo...vejamos:
-Ter tomado a Ucrânia em 72 horas (a resistência já vai em quase três meses...)
-Ter destruído a aviação lá do burgo numa hora e meia (a "não aviação " Ucraniana voa e destrói alvos).
-Assassinar Zelensky com o cunho dos mercenários da Wagner nas primeiras 24 horas da invasão (......sem comentários).
-Deu nova vida á NATO.
- Acabou com a neutralidade Finlandesa e Sueca (com um "cadinho" de jeito ainda com a Suíça...).
Se não fosse trágico daria para gargalhar...

quinta-feira, novembro 18, 2021

"Na Corda Bamba"










"De coração cheio"
(Alerta: Texto excessivamente longo e lamechas.)

No dia 6 Novembro virei o cabo da boa esperança para as 47 voltas completas ao sol. Foram centenas de mensagens nas suas variadas formas nas redes sociais, uma enxurrada abençoada de telefonemas e a presença física ( no dia e véspera ) de pessoas que moram no meu coração .
A todos um sentimento de gratidão por me fazerem sentir imensamente amado .

"Na antecâmara das dúvidas"
Entre prendas, lembranças e mimos levantava se agora em mim o medo de uma cirurgia que aguardava ansiosamente há cerca de um ano e meio.
Foi assim um aniversário bom e preenchido mas com o pensamento na antecâmara da tarde de 8 de novembro onde uma ida ao ambulatório do CICAP removeria uma catarata (que se revelaria perigosa, traumática, "madura" e altamente inflamada).
Como muitas coisas na minha vida não poderia ser assim tão simples e evidente. Por aqui não existem facilitismos e até no karma da rotina surge sempre algo inesperado.

"Da escuridão á Luz "
O check in borrado de dúvidas, um atendimento de excelência humana e profissional em todo o serviço de oftalmologia Santo António, levou me a uma estranha calma.
Troca de roupa pela bata da praxe, início das hostilidades com gotas de anestesia rotineiras, um cateter colocado á primeira tentativa nas veias salientes e a espera começa...
(metade do pessoal de enfermagem de oftalmologia tem sotaque quente transmontano e isso foi reconfortante)
Troca para uma maca numa sala mais resguardada , mais anestesia nas veias, tubos no nariz para mais um aroma de relax...mais...mais e mais ..
Voz suave da anestesista ...agulha 6 cm abaixo do olho ..."para você ter poucas ou nenhumas dores...vai demorar mais um pouco ... 15 ou 20 minutos para fazer efeito".
A adrenalina dispara um pouco mas a pressão do medidor arterial e das ventosas para o ritmo cardíaco, dão me sinal mental para não me cagar nas calças e ser forte e determinado...estou ali para não f...a vida a quem vai tentar tratar de mim.
Assim Seja Assim Será
Nova volta rápida para o bloco operatório (isolado)...um formigueiro com sete elementos com simpatia desarmante e a preparar o procedimento . Olho "bom" tapado, o danificado só vê sombras e já altamente sedado. Cabeça ligada entre um molde para mexer o mínimo possível e a dança começa.
Olho sempre húmido com a voz firme da Cirurgiã de serviço ( firme, profissional e empática no vigor dos trintas e poucos especulo).
Uma hora de ansiedade com a calma com que as drogas nos tomam e a firmeza superlativa nas vozes mesmo quando quase tudo foi diferente do expectável ( existem interjeições que ficam no templo sagrado do bloco operatório assumo firmemente). Ao longe ouço música baixa talvez resistência e heróis do mar...talvez seja uma alegoria do meu imaginário...talvez...
Tudo acaba em trinta segundos (começou há 1 hora fora a panóplia de preparo anestesista com mais sessenta minutos...) implante do cristalino feito, catarata removida.
Rapidamente passo para um sofá azul com rodas sólidas....visível a satisfação de todos corporizado na voz firme da Cirurgiã que extenuada mergulha no sofá encostado á parede branca do bloco e no carinho de alguém que me quer colocar rapidamente a comer bolachas e a beber um chá quente e aromatizado com esperança.
Solto um obrigado cansado mas sincero e sou empurrado para um canto confortável onde uma das anestesistas me chega o almejado chá enquanto que nas minhas mãos já caminham bolachas Maria ( eterno clássico tuga) rumo a um estômago esburacado ( estou sem comer e beber desde as 09 da manhã...são agora 18 e 53).
Visto me o mais rapidamente possível já com a Fernanda vigilante á minha espera e o João no carro preparado para zarpar e preparado para me levar a casa.
( Todos os que me deram força foram transbordantes mas os meus pais, a Fernanda e o João foram heróis decisivos na paciência e ânimo que me transmitiram e apoio prestado).
Alívio, alegria ( sinto me verdadeiramente feliz), e uma vontade de chegar rapidamente a casa para me afogar num abraço aos meus pais e devorar avidamente comida quente e apetitosa rumo a um descanso eufórico.
"Tinha tudo para correr muito mal...acabou tudo por correr muito bem"
Três dias com luz e visão em crescendo...rumo mais calmo a consulta no salão Neo clássico do Santo Antônio.
A simpatia já expectável ( agora com sotaques tugas e africanos com a mesma doçura açucarada e cuidado).
Exame rápido e medição das lentes para os óculos. Consulta com a Dra Luísa (a Cirurgiã obstinada e que galgou o imprevisto de última hora com mestria e gosto pelo desafio apresentado).
Reforço de gotas, prescrição de comprimidos e a mesma voz firme e empática : "Tinha tudo para correr muito mal...acabou tudo por correr muito bem".
( Mais uma vez refaço o código não se conta tudo o que se ouve no bloco, não se revelam todas as palavras de uma consulta pós cirurgia).
Esperança na recuperação e mais uma dança no dia 6 de Dezembro.
Como em muito na minha vida... alicerçado na fé na esperança...na superação e resiliência.
Nunca sozinho...nada sozinho... absolutamente acompanhado... absolutamente e radicalmente amado.
Tentarei sempre que a esperança da (na) minha alma seja maior imensamente que o somatório dos meus medos.

De dentro de mim para vós

Paulo Correia

quinta-feira, fevereiro 25, 2021

"A Falta dos Afectos que Mora em Todos Nós"

 Uma das novas realidades que a pandemia que nos açoita a todos me tem revelado no dia a dia tem sido a carência afectiva óbvia e evidente que mora em todos nós sem excepção.

Como assessor de comunicação da Sopro de Carinho Associação e com um contacto diário com dezenas de doadores individuais e empresariais, as conversas arrastam se agora para um campo mais pessoal e de mutualidade compreensiva.

Com mais de vinte anos de trabalho na área global da comunicação, sempre considerei uma das chaves base do sucesso de cada projecto o trabalho de equipa e respeito pelas individualidades dentro do colectivo, bem como o "acesso" ao factor individual de cada cliente, fornecedor e parceiro de negócio.

Há já uma década a trabalhar na área do marketing social na componente infantil e pré adolescente para mim é impossível não existir um envolvimento afectivo forte com todos os que directa ou indirectamente contribuem para o meu (nosso) trabalho.

Já atravessei (atravessámos) fases com nuvens e sombras com o expoente a ser a perda da primeira Criança ligada aos apoios gerados na Associação. Sensação de murro no estômago e de impotência colectiva que nos deu (ainda) mais força para continuar mesmo na dor mitigada de uma perda que considerámos como um dos nossos.

O novo confinar das nossas vidas pessoais e laborais leva-nos inevitavelmente para o (re)pensar o somatório dos nossos medos quotidianos, inseguranças e zonas menos seguras.  A falta de um café entre amigos, um vinho aromatizado em cada rosto conhecido, bem como o odor do nosso escritório de sempre e os cheiros de quem o percorre, são alguns dos bons momentos que nos dão segurança para transpor a insegurança diária.

A falta dos afectos mora mesmo em todos nós...por quanto mais tempo?!


quarta-feira, fevereiro 03, 2021

"Até que as Urnas nos Separem" (parte I)

 Optei por fazer um compasso de espera para destilar mais a frio algumas linhas soltas (mas ponderadas) acerca das presidenciais made in 2021 (com selo covid) em Portugal.

A par da vitória mais que esperada do "candidato de todos" (tantas foram as colagens ao sucesso de Marcelo...) o fenómeno preocupante centra se na direita extrema e populista que ás costas de Ventura galga meio milhão de votos e ameaça a práxis democrática, dando azo a uma direita oca e de extremos bem perigosos e demagogos.

Por mais que possamos analisar a derrota comunista e bloquista, o segundo lugar de Ana Gomes (saberá aproveitar o seu score no futuro próximo?), e as votações interessantes do candidato da iniciativa liberal e até de Tino de Rans (mais de cem mil votos...); tudo resvala de como foi possível um candidato oco, demagogo e alicerçado em fontes de financiamento no mínimo duvidosas, ter ganhado terreno no campo democrático.

Das duas uma: Ou estamos a assistir a um voto de protesto desesperado em que o medo, raiva e afins triunfaram e desmontaram a total deserção do sistema politico vigente que não responde ás expectativas geradas (esperadas) ou estamos num pais que algum fascismo encoberto durante décadas afiou as facas longas e ganhou coragem para finalmente ter um partido que corporizasse a sua forma redutora e radical de encarar o modus vivendi individual e colectivo.

Gostava como democrata e filho da democracia de Abril que fosse apenas o desespero a resposta para esta radicalização, mas temo que a resposta seja bem mais vasta e preocupante...retomarei o tema brevemente...




quarta-feira, agosto 26, 2020

O Inferno do Nosso Céu




 A nossa vida prévia era perfeita e nós não sabíamos (ponto afirmativo absoluto e sem discussão).


Esplanada cheia, com copos agudos de líquidos vários, risos estridentes intercalados por vozes múltiplas no orgasmo de uma noite de convívio. Na Tv as noticias habituais, formatadas na tendência global de um mundo sempre a explodir na torre de Babel da não tolerância.

Um tema comum introduzido quase á surdina toma forma de zumbido crescente: Um vírus misterioso nasceu na gigante e longínqua China. Noticia quase de rodapé mas repetida na exaustão intuitiva que algo se aproxima para inquietar almas e alterar comportamentos. 

Está um calor anormal em Fevereiro numa qualquer noite onde vivemos numa falsa sensação de segurança, em breve tudo mudará numa onda de choque que irá varrer o globo de forma impiedosa e ditará os passos que transformarão as nossas vidas colectivas para sempre.

Entre as teorias da conspiração e as origens de um mal enigmático, dormitamos num sono inseguro que nos afastará do mundo tal e qual o conhecemos e intuímos. Brevemente apartamentos e casas se transformarão em locais de isolamento laboral e pessoal. Termos como "confinamento", "quarentena" , "teletrabalho" (trabalho remoto) se unirão ao impacto de "corona vírus" (mais tarde "covid19).

Os gigantes económicos que ditam os nossos passos no dia a dia absorvem-nos com uma benevolência falsa com o slogan dos vendedores da banha da cobra: "Paguem (um pouco) mais tarde" afirmam.

Em cada lar uma fortaleza, em cada alma a inquietude da saudade, em cada olhar o medo flamejante do gelo do futuro outrora certo.

Poderíamos vociferar que este é apenas mais um ano, mais um vírus, mais uma barreira (invisível), suspirar num optimismo de que "tudo irá ficar bem" mas lá no fundo da nossa alma inquieta sabemos que nada será como outrora no antigamente de um passado sempre presente na memória.

Tão somente vivenciamos o Inferno do Nosso Céu...apenas não o pressentimos a tempo...




sexta-feira, maio 01, 2020

Diário de um Quarentão (em "quarentena") Parte III



A varanda novamente como companheira num dia que amanheceu tardio com nevoeiro britânico e chuva fugidia mas cíclica no seu eterno regresso. Portátil no colo anichado, os pés do costume (despidos) com a alma cheia de pensamentos (o isolamento momentâneo da pandemia faz nos pensar "mais  e mais vezes").

Divido hoje a escrita  em pequenas gotas soltas que gravitam entre o Abril que marca a  minha (nossa) história, o Maio da libertação (será?)  e as anotações de um futuro que terá raios de sol no meio do nevoeiro cinzento e da chuva restritiva (no final prevaleceremos adianto já...)



1.

"O Maio do nosso (des)contentamento"


Dia de todos os que labutam e lutam nesta vida por vezes repleta de barreiras...dia do trabalhador mas também do combate às assimetrias das crianças ( os trabalhadores do amanhã...muitas infelizmente já trabalhadores do hoje...) . 



Data de todos aqueles que ainda recebem o chicote da injustiça global, que em tempos de pandemia a histeria e a prepotência não ganhem...ganharmos todo unidos na fé de uma nova versão humanista em que o "nós" se sobreponha ao "eu" hedonista (egoísta).



Maio marcará o (re)inicio dos nossos pequenos passos para uma (a)normalidade que tenderá a ser diferente e com muitas dúvidas e incertezas.


Os medos que antecedem a antecâmara de novos tempos marcarão o nosso novo gatinhar. Que as fake news, populismos dos ditadores (eleitos ou não...) e a cultura maldizente do "bota a baixo" não vingue e que aprendamos com estes tempos de incerteza...na certeza que para sobrevivermos social, económica e politicamente teremos que reconstruir e reescrever novos conceitos.

2.
"Abril revisitado"

Nunca a porra de um período de trinta dias me pareceu tão longo e custou tanto a verter tempo não sorvido nem saboreado com os padrões de carga emocional normalizados, no entanto nunca os telefonemas e video chamadas me pareceram tão bem, nunca um copo de vinho foi tão lentamente saboreado ou as emoções delgadas se transformaram muitas vezes em olhos marejados de agua húmida mas temperada com um quente arrebatador de sentimentos por vezes antagónicos.

Abril do nosso contentamento nacional da democracia que o dia vinte e cinco trouxe e arrebatou, da minha satisfação pessoal de ao longe sentir ao perto os quarenta e seis anos que unem os meus pais na aventura de uma vida (casaram dois dias depois da revolução dos cravos de setenta e quatro). Abril de sentimentos mil...Abril longo...estupidamente longo...Abril diferente...Abril maldito...amaldiçoado mas para recordar no horizonte das memórias que nos fazem crescer por caminhos inusitados.


3.

"O futuro já hoje"


Mudo o portátil para a posição de repouso, derramo um telefonema rápido com um amigo de longa data, inspiro e retenho o olhar no céu com nuvens e com a ameaça de mais uma carga de água que invadirá o meu jardim e que rapidamente ganhará espaço no chão despido da varanda de pedra branca apenas manchada pela naturalidade das folhas velhas e ramos quebrados arrastados por um vento diferente que se revela desde o último cigarro fumado na madrugada após mais uma sessão de cinema tardia fruto da falha do sono reparador de mágoas e elixir de novas esperanças. 



Tenho encarado esta porra toda dos últimos meses o melhor que sei e que posso; chorei amiúde, ri me também muitas vezes mas essencialmente reforcei laços e (re)conheci-me melhor como pessoa e como ser humano. Incapaz de me fechar na minha concha, estendi a minha mão sedenta e muitos retornaram-me o acto (misto de medo e coragem) sem dramatismos apenas com a naturalidade de quem precisa do "nós" para poder sobreviver (viver) no "eu" (todos nós).



O futuro é já hoje, no meio das pedras e rochedos, do negro do espectro do desemprego, na ansiedade do exemplo (por exemplo) de um pai e duma mãe com as incertezas que estes novos tempos ditam; tenho a convicção na minha tranquilidade (absolutamente humana, não tranquila e corajosamente borrada de medos e incertezas) que sobreviremos entre a penumbra que teimará em nos querer cegar e que o sol, a areia fina e o mar sem cor serão o nosso futuro.



Portanto borrem-se de medo, encham-se de dúvidas e receios mas caminhem em frente entre escombros e ruínas nascerão novos alicerces que nos permitirão (re)conquistar o futuro. Estejam atentos e não servis, receosos e prudentes mas sem medo de arriscar e caminhar. 



É assim que traçarei meu trajecto, e é assim que os meus pés descalços na varanda ficarão molhados com a  chuva mas se alimentarão do sol e da alma que os iluminará rumo ao caminho do amanhã....