Crónica de Miguel Esteves Cardoso, publicada no jornal
Público em 10 de Fevereiro de 2026.
António José Seguro já começou a influenciar-nos.
Para bem.
Estamos mais sérios.
Se é assim antes de ele ir para Belém, imagine-se quando ele já lá estiver.
E uma ilusão frequente que cada participante julgue que é um dos protagonistas.
Pensamos que fomos nós,
depois de os nossos saltos todos terem falhado,
que decidimos que era altura de aterrar no Seguro.
Mas, se calhar, foi ao contrário:
foi Seguro que esperou por nós.
A maneira como ele avançou não mostra apenas que é uma pessoa paciente.
Mostra que sabe o que está a fazer:
Mostra que é adulto.
Mostra que é eficaz.
Cruzei-me uma vez com António José
Seguro,
num bar do Bairro Alto,
nos anos da sida,
era ele da Juventude Socialista.
Veio ter comigo e ofereceu-me um pacote de preservativos.
Eu, para mal dos meus pecados,
já estava com um grão na asa
e fiz uma piada sobre o sexo seguro.
Ele riu-se diplomaticamente.
Quantas vezes tinha ele ouvido aquela piada sobre o apelido dele,
só naquela noite no Bairro Alto?
Foi esta a primeira coisa que aprendi sobre ele:
é uma pessoa muito bem-educada,
genuinamente bem-educada,
que respeita os outros,
e aceita que somos todos imperfeitos
e que é essa imperfeição que nos une.
Chama-se Seguro:
que grande piada!
Fez a campanha do sexo seguro
e agora vai ser um Presidente seguro
-e daí?
Já pararam de rir?
Já podemos trabalhar?
Seguro dá-nos o desconto.
Nós somos as criancinhas, os agitados, os cabeças-de-vento.
Ele compreende.
Ele espera.
Ele sabe que isto nos passa.
Por outro lado, por ser adulto,
sabe quais são as coisas sérias:
são as coisas que causam sofrimento escusado aos cidadãos,
são as coisas que vale mesmo a pena resolver.
Estas pessoas pacientes e adultas,
bem-humoradas e calmas,
são terríveis quando se zangam
- porque só se zangam com as coisas importantes.
É como se se poupassem para elas.
Nós não tornaremos Seguro mais maluco, ou divertido.
Mas ele tornar-nos-á mais adultos.